Hoje criei coragem e comecei a abrir, lentamente, as gavetas, os armários, as estantes e a minha vida...
Meus sentimentos começaram a ficar bagunçados, tanto quanto aquele montão de coisas que eu tinha que encaixotar para fazer a mudança.
Já troquei de casa algumas vezes. Já fui! já voltei! Mas nada nunca me pareceu tão definitivo.
Enquanto mexia em minhas roupas, percebi que cada uma tem uma história, um motivo para estar ali. Cada peça, cada sentimento... Olhei para aquele montão de coisas e quanto mais desorganizadas ficavam, mais meus pensamentos e sentimentos se misturavam dentro de mim.
Decidi dar tudo aquilo que não me "servia" mais. Cada peça, com sua recordação particular, com meu sentimento mais íntimo, foi sendo colocada dentro de uma sacola para doação... Estava doando o meu passado, estava doando a minha vida!
Cheguei a cozinha, abri os armários, olhei cada louça, cada prato, copo, taça, panela... Todos com suas recordações, desde o dia da compra, até o primeiro e último uso... Doarei também!
Fui ao escritório. Ali, me detive o resto do dia e sei que precisarei de mais um bom tempo. Cada pedaço de papel, cada livro!
Peguei o livro "O pai invisível", do Kledir Ramil, onde fiz, na verdade, fizemos, uma leitura juntos, era tanta coisa em comum que eu não conseguia ler uma página, um parágrafo e parar, rir, gargalhar, olhar para o lado na cama e te perguntar: lembra disso? E nós dois caíamos na gargalhada! Gargalhadas gostosas...
Ouço sons na casa... Enquanto caminho para retirar as cortinas, para mover os móveis, ouço o som dos planos, dos projetos... Ouço o som do amor!
Ouço sons na casa... Enquanto caminho para retirar as cortinas, para mover os móveis, ouço o som dos planos, dos projetos... Ouço o som do amor!
Quando paro, me encosto na porta do nosso quarto... Ouço o som do nosso amor, da paixão, do olhar, do toque, do beijo e nossa cama está vazia... Até os lençóis eu decidi que vou dar. A cama? Não quero! O colchão? Que vá para casa de alguém que siga dando a ele o valor que merece... Noites e noites de um amor quase insano... De loucuras que ficarão dentro das quatro paredes do nosso quarto!
Mudança não é fácil, parte de nós está sendo encaixotada, parte de nós está ficando naquele lugar e uma terceira parte está morrendo para que uma quarta parte possa renascer.
Morre-se ao ver o sonho desfeito, morre-se ao ver o amor acabado, morre-se ao perceber que foram anos e anos e saímos vazios, tão sozinhos!
Quando construímos uma casa, uma história se constrói ali. Não são apenas tijolos, cimento e muito dinheiro. São sonhos. Sonhos de um lar, de uma família. São sonhos de eternidade. Mas, são sonhos que acabam e nos mostram que nada é eterno.
Vou jogar fora, vou doar tudo, praticamente tudo!
Vou jogar fora, vou doar tudo, praticamente tudo!
Ainda não estou pronta para doar aquele anel de brilhantes porque ainda há muito sentimento em mim quando, simplesmente, olho para ele e lembro do dia em que me deste. Sentados, na nossa cama, tu me olhaste, pegaste aquela caixinha e, olhando nos meus olhos, só disseste: te amo! Este presente é para simbolizar e eternizar meu amor por ti!
Tão lindo! Tão delicado! Ele vai ficar guardado. Por enquanto... Enquanto houver o sentimento, o sentimento que ele representa.
Continuo encaixotando tudo... Confesso, não estou pronta para sair daqui, da casa que desenhei, projetei. A cada desenho novo, sentávamos com o chimarrão e analisávamos cada detalhe... Então, uma alteração aqui, um rabisco alí e lá se foram dez... Dez plantas diferentes até chegarmos ao veredito final, bater o martelo e começarmos as obras.
Não estou pronta mesmo... Sair será como cortar o cordão umbilical. Algo que não se pode juntar novamente, um pedaço está sendo cortado e... é definitivo... É para sempre!
Mas, mudanças acontecem, amores acabam, famílias se destroçam... Dói??? Simmm!!! E muito!!!
Mas, talvez, neste momento, esta passagem seja necessária.
Algo novo e bom pode estar do lado de fora destas paredes, deste castelo de areia. Desta ilusão que durou dez anos!!!
Mudança... Vamos lá, ainda a muito o que encaixotar... Ainda há muito o que recordar....
E....
Ainda haverá muito a esquecer!!!
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